04/03/2008 15:44
ENSAIO DO ESPONTÂNEO
Mais do que o chapéu de Roger cortado a facão por um desses facínoras de calções e chuteiras, o gol de Tardelli, síntese perfeita de técnica, habilidade, percepção e manha, ou os dribles de Valdívia, o que está na boca do povo e da mídia é a fantasia das comemorações, sobretudo o chororô e a dança do créu. Pode, não pode; deve, não deve.
Bem, sou de um tempo em que as celebrações do gol eram discretas e recatadas, como, de resto, quase tudo naquela época: a bola ia tocada de pé em pé, até que fosse empurrada certeira para as redes inimigas; a turma, então, limitava-se a levantar os dois braços, uns saíam saltitando, este ou aquele ia até o autor da proeza e lhe dava um aperto de mão e um tapinha nas costa, e bola que rola.
Talvez, porque a conquista de um gol, naqueles tempos, não fosse tarefa tão árdua como hoje, não sei. Só sei que as coreografias começaram com aquele gesto simples e marcante de Pelé: o salto, num giro em si mesmo, com um dos braços espetando o céu. Isso, já nos anos 60.
Gesto que, segundo assegurava o saudoso Oldemário Touguinhó, testemunha de tantas proezas daquele Santos por esse mundão afora, nasceu de uma necessidade: com um dos braços machucado, Pelé só podia levantar o outro. Daí, nasceu o símbolo.
O fato é que o próprio Santos, se não estou equivocado, lançou essa moda um tanto promíscua de todos os jogadores se amontoarem em festejos no gramado. De início, apenas como um arroubo por algum título conquistado, que eram tantos. Depois, ao término de clássico muito disputado. Mais tarde, na feitura de um gol.
Já nos anos 70, começaram as variações sobre o mesmo tempo as cambalhotas, o jogador correndo para o orelhão plantado atrás da meta, o que, com o tempo, evoluiu para as danças conjuntas e cenas ensaiadas, como aquela em que um jogador finge engraxar a chuteira do outro, os embalos de bebês imaginários, chupetas, porco chafurdando na lama e tal e cousa e lousa e maripousa.
Longe de mim condenar a festa de um gol, o momento mágico do jogo, o objetivo final em que todos estão metidos até o pescoço. Mas, esse pequeno teatro adrede preparado, ensaiado, me passa uma sensação de artificialidade que contraria a espontaneidade da emoção irrefreável da conquista de um gol.
Ah, mas isso faz arte do espetáculo. Sei bem. Mas, cá entre nós, prefiro muito mais o espetáculo do gol em si do que a falsa emoção de sua celebração.
enviada por Alberto Helena Jr.
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(O que é isso?)